O monitoramento do trabalho remoto e a evolução da Gestão de Projetos

Estamos dando continuidade em nossas análises de impacto e novos comportamentos que a pandemia do Covid-19 acarretou na Gestão de Projetos.

Em nosso primeiro artigo, discutimos características e implicações gerais deste novo cenário. Agora, vamos fazer um recorte e discutir principalmente o trabalho remoto e as aplicações de inteligência artificial para acompanhamento deste trabalho remoto sob ótica dos estágios de desenvolvimento organizacional propostos por Frederic Laloux.

Primeiro, vamos a definições importantes.

O trabalho remoto e o home office

De acordo com um relatório do Gartner de abril, quase três em cada quatro diretores financeiros planejam manter alguns trabalhadores em trabalho remoto permanentemente. O Trabalho remoto é aquele que teoricamente pode ser executado de qualquer lugar: de casa, de um quarto de hotel, de um espaço de coworking, de um café, … e por aí vai. Já o Home Office é o trabalho realizado exclusivamente de casa. 


Nos dois casos, temos vantagens para a empresa e para o colaborador.
Para a empresa, temos redução de custos operacionais é como  luz e água, por exemplo. Nota-se também uma melhoria inicial na produtividade e no engajamento dos colaboradores, já que estes podem utilizar ferramentas de colaboração e planejar o seu cronograma de atividades de acordo com os seus compromissos pessoais. Para o colaborador, a principal vantagem é a qualidade de vida, já que ele economiza tempo indo e vindo ao escritório, evitando o estresse do trânsito e outros imprevistos.

O monitoramento do trabalho remoto

Em outro relatório do Gartner, 76% de todos os líderes de RH disseram que a principal reclamação eram “preocupações dos gerentes sobre a produtividade e o envolvimento de suas equipes quando remotas”, embora observassem que essas preocupações “costumam ser exageradas”.

Por não estarem fisicamente em um mesmo ambiente, qual seria o comportamento da equipe em relação ao trabalho a ser executado? Seria este o outro lado da moeda quando discutimos o trabalho remoto? A resposta pode não ser tão simples. Vamos primeiro apresentar os pontos negativos para então discutir casos interessantes.

Desde o começo da pandemia surgiram análises de aplicativos para monitoramento do trabalho remoto. Neste artigo os autores condenam veementemente qualquer tentativa de realizar esta violação de privacidade, segundo eles. Os softwares analisados podem realizar capturas de tela do laptop, acompanhar quais sites você está visitando, quanto tempo gasta em vários aplicativos e até mesmo os movimentos do mouse. Alguns softwares até extrapolam este conjunto inicial de vigilância, tirando fotos da sua webcam para garantir que você esteja na sua mesa ou até rastreando você via GPS do seu telefone.

A proposta final é que as “métricas” acima citadas sejam compiladas em uma “pontuação” que deve informar aos seus colaboradores o quão produtivo eles são. As implicações subjacentes disso, segundo os autores, são perturbadoras.

Em outro artigo recente, é apresentado o caso da startup americana Einable, que usa sua Inteligência Artificial para calcula a rapidez com que os funcionários em home office concluem diferentes tarefas. E vai além: também sugere maneiras de acelerá-las e até dá a cada empregado uma “pontuação de produtividade”. No mesmo artigo, também é apresentada a proposta da empresa britânica Status Today que monitora as interações entre os funcionários para identificar quem colabora mais no trabalho. Ele seria ainda capaz de combinar esses dados de produção com informações pessoais para identificar os funcionários que são potenciais “agentes de mudança”.

Estas iniciativas soam bem Black Mirror, Bandersnatch ou Big Brother, concorda? Antes de discutir a validade destas, vamos falar um pouco sobre a evolução da forma como as organizações executam seus trabalhos/projetos em equipe.

Os estágios de Desenvolvimento organizacional

Para Frederic Laloux, autor de Reinventando as Organizações, a humanidade evolui em estágios e que, a cada transição, alguns pilares fundamentais da sociedade se transformam: tecnologia, economia, política, ideologia etc. Nada mais normal então, que a própria forma como cooperamos e nos organizamos para realizar projetos e produzir coletivamente o que a sociedade precisa, também se altere.

O interessante é observar que em momentos específicos da história da humanidade aconteceram mudanças substanciais no contexto social da época, incentivando novos modelos de gestão que melhor se adaptassem à visão de mundo e ao modus operandi da época. Podemos considerar, atualmente, que a humanidade vive um momento de grande transformação e, com isso, um novo paradigma de gestão está nascendo!

Vamos aos estágios evolutivos?

Impulsivo Vermelho: Estágio tribal, com chefe autoritário. A cultura da força, poder e medo impera nesse modelo e mantém a ordem. Ausência de hierarquias, formas ou títulos, acarretando limitação no crescimento individual.

Conformista Âmbar: Estágio da hierarquia, com chefe inquestionável, estrutura com processos rigorosos e uma hierarquia estabelecida com pouca chance de ascensão. A estrutura organizacional estável permitiu o início de uma cultura de planejamento a longo prazo e, consequentemente, a invenção dos processos.

Realizador Laranja: Estágio da meritocracia, da inovação e da responsabilidade com ética, em que as organizações iniciam um processo de mudança na estrutura organizacional piramidal para aproveitar melhor a inteligência coletiva de todos da empresa e de fora dela.

Pluralista Verde: Estágio da “familia”, em que as organizações passam a valorizar a colaboração, o consenso e a igualdade. Surge o conceito do líder servidor e do empoderamento da equipe. Clientes e fornecedores são incorporados nas partes interessadas e levados em consideração nas decisões. Surgem os conceitos de Lean e Agile.

Evolutivo Teal: Estagio evolutivo, em que empresas lançam mão de tecnologias exponenciais que integram e automatizam processos, trazendo mudanças em ritmo acelerado. Propósito, trabalho em rede com processos ágeis e colaborativos, autogestão e integralidade são temas presentes.

Os cinco estágios de desenvolvimento organizacional fornecem um ótimo cenário de como diferentes tipos de organizações operam. Isso permite que cada organização entenda onde está pisando e o que pode vir em seguida.

Impactos do monitoramento em trabalhos remotos

Vamos voltar agora a questão do monitoramento do trabalho remoto pós-pandemia. Diante da evolução da forma como as empresas se organizam para executar seus trabalhos e consequentemente gerenciar seus projetos, faz sentido realizar o monitoramento da equipe remota em todas as organizações?

Primeiro, vamos a quatro aspectos importantes para ajudar responder esta pergunta.

1) Durante a evolução dos estágios os seguintes aspectos são influenciados:

  • Motivação
  • Medo
  • Confiança
  • Consciência de si mesmo
  • Lealdade
  • Clima de trabalho
  • Visão e valores fundamentais
  • Atitude em relação ao trabalho

Pense em como cada um deles pode ser afetado por estes sistemas de monitoramento.

2) Em um mesmo momento na história, temos diferentes organizações operando nos estágios acima descritos.

3) Em uma mesma organização podemos identificar departamentos, setores, grupos que podem operar em estágios distintos de evolução.

4) Temos organizações que já realizam este monitoramento e assumem como fator de sucesso de suas operações, como empresas de Call-Center.

Bom, a resposta não é simples, o monitoramento pode ser eficaz em organizações de cultura da força e poder ou com processos e escopo de projetos bem definidos. Ou seja, que estejam em estágios Impulsivo-Vermelho ou Conformista-Âmbar.

A maior parte de nossas organizações atuais opera em estágios Realizador-Laranja ou Pluralista-Verde. A adoção de ações de monitoramento pode causar estragos em alguns aspectos desta organização. Em organizações Evolutivo-Teal, este monitoramento estaria totalmente fora de cogitação.

Você também pode gostar destes artigos:

Sobre Hayala Curto

Sobre o Colunista: Hayala Curto, CEO da NetProject. Mestre em Informática e graduado em Ciência da Computação pela PUC-MG. MBA em Gerência de Projetos e MBA em Gestão Empresarial pela FGV.
Tem mais de 20 anos de experiência profissional, coordenando projetos de TI e implantando Escritórios de Projetos em clientes de diversos portes e segmentos. Participou da abertura de 3 empresas. A primeira faliu, a segunda foi vendida e atualmente trabalha como CEO na terceira.
É certificado PMP desde 2005, PMI-SP e PMI-RMP, pelo PMI. Também é certificado IPMA-C, Prince2 e CSM. Apaixonado por Gerenciamento de Projetos, atua como docente na área, em cursos de pós-graduação/MBA, desde 2009.

Os comentários foram encerrados, mas trackbacks e pingbacks estão abertos.